terça-feira, 12 de outubro de 2010

Teoria e prática


            Inicialmente temos por objetivo relacionar os estudos de grupos vistos em sala de aula com as observações a respeito da estrutura e funcionamento do grupo de Alcoólicos Anônimos. Dentre os diversos conteúdos que abrangem a descrição de grupos restringiremos nossas pontuações aos aspectos estudados em sala de aula e observados no AA.
            No que se refere à classificação de um grupo, este se enquadra na categoria aberto, pois os membros possuem a liberdade de entrar ou deixar de fazer parte do grupo quando quiserem, bem como adaptar as reuniões do grupo conforme seus horários. Também não são realizadas as entrevistas preliminares para entrada no grupo. Devido a esta liberdade, o número de participantes por reunião é variável.
             Outra característica é sua heterogeneidade em relação ao sexo, entretanto é predominantemente masculino e isso se confirmou nas observações realizadas. Em relação à idade e a classe social o grupo também pode ser classificado como heterogêneo. No entanto, há homogeneidade no que se refere a tarefa do grupo, que consiste em manter o estado de sobriedade por mais 24 horas, implicando na prevenção de recaídas.
            Estes critérios de formação de um grupo estão intimamente relacionados com a finalidade deste. Nos encontros do AA se identifica a de transformação do status quo já que visa passar da condição de alcoólatra viciado para a de alcoólatra em recuperação. Esta finalidade é atingida através da busca da sobriedade, bem como a percepção dos prejuízos que o álcool traz para o sujeito em questão.
            A estrutura do grupo é composta pelo coordenador e co-coordenador que são alcoólatras em recuperação, eleitos de forma democrática pelo grupo e que representam a liderança. O setting, a sala em que os encontros são realizados, possui cadeiras dispostas em fileiras que estão de frente para uma mesa principal, na qual se encontra a liderança sobre a qual estão disponíveis alguns livros. Ao lado desta mesa, encontra-se uma cadeira a qual eles denominam de cabeceira, onde os sujeitos possuem espaço de dividir sua experiência. No lado oposto há um quadro negro fixado na parede, no qual são anotados a pauta do dia, a quantia de dinheiro arrecadada na contribuição voluntária e o número de visitantes do dia. Acima desta lousa, encontram-se o quadro dos fundadores do AA e os banners com os doze passos, princípios e a oração do AA. Em outra parede, tem-se o banner com o lema do AA: “Se você quer beber, o problema é seu; se você quer parar de beber, o problema é nosso”.
            Quanto ao funcionamento ilustraremos através da descrição de uma reunião: o início da reunião se dá quando o coordenador toca a sineta, todos se acomodam e é pedido que seja feito um minuto de silêncio seguido da oração dos AA'S. Após isso, o co-coordenador lê um trecho de um dos livros dos AA's e após esta leitura, o coordenador disponibiliza a cabeceira para quem quiser dirigir-se a ela e utilizar os 10 minutos de fala. Aos 9 minutos é tocada a sineta a fim de sinalizar que falta 1 minuto. Observamos que em vários depoimentos, conteúdos importantes apareceram neste minuto final, mas que devido ao tempo não puderam ser mais explorados.
            Em média seguem mais 4 participantes utilizando a cabeceira até a hora do intervalo. Este possui duração de 15 minutos em que oferecem café e bolachas que são adquiridos através da contribuição voluntária da sacola. Esta é passada para todos os participantes antes do intervalo e cada um coloca a quantia que quiser; os visitantes não podem contribuir, pois uma das diretrizes do AA é ser um grupo auto-suficiente. Após o intervalo, continuam os depoimentos dos participantes – em média de 3 a 4. E ao final da reunião é lida uma reflexão, feita novamente a oração e se encerra o encontro deste dia.
            Os AA’s têm uma organização muito grande, visto que são regidos por 12 princípios e 12 passos e possuem uma literatura própria a qual estudam e utilizam como ferramenta na batalha contra o álcool. Nos depoimentos dos participantes, foi observada uma iminente referência aos livros do AA e nos foram sugeridos como leitura a fim de obtermos uma maior compreensão a cerca da doença que é o alcoolismo. Vale ressaltar que esta literatura se encontra disponível em sites ou na própria sede do grupo.
            Por fim, o grupo de AA, caracteriza- se como um grupo de auto ajuda visto que não é coordenado por um técnico, profissional especializado na área ou alguém que faça intervenções nas falas dos participantes. O simples fato da escuta, da fala e da identificação proporcionada por ambas torna o encontro terapêutico e auxilia no processo de recuperação. Dessa forma, classificamos o AA como uma medida efetiva podendo ser trabalhada em conjunto com psicoterapia, fármacos e outros tratamentos.
            Assim, o fato de estar em um local onde todos compartilham da mesma causa, e reconhecem o efeito devastador do álcool e a dificuldade de permanecer em tratamento, implica em um amparo, o qual a sociedade não oferece. Portanto, é relevante para a formação de um psicólogo, enquanto agente do social ter a vivência de grupo e o contato com a toxicomania, através, por exemplo, de uma reunião de AA. 

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